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Perfume, Destino e a Mão que Aprende - um conto sobre Orixás

  • Foto do escritor: Nicole da Oxum
    Nicole da Oxum
  • 23 de fev.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 5 de mar.

Um conto de axé que atravessa gerações


Perfumes "Avon" em quarto de Santo - Batuque RS
Perfumes "Avon" em quarto de Santo - Batuque RS

Há histórias que não nascem para assustar. Nascem para lembrar.


Perfume, Destino e a Mão que Aprende - um conto sobre Orixás


Todo batuqueiro lembra dos famosos perfumes do vidro crespo da marca "Avon" que todo o quarto de santo tinha paras nossas Yabás do mel, Oxum e Iemanjá.

No final dos anos 80 e inicio dos anos 90, no cabo rocha, em Porto Algere, atual Azenha existia um famoso Babalorixá, o Mariozinho do pó da Oxum Pandá, que nunca perdia nenhum batuque e quando tocava o locori de Oxum, seu orixá Oxum Pandá ocupava seu filho e dançava, tomava e esborrifava perfume por cima das pessoas na roda, as vezes chegava gastar 5 ou 6 vidros de perfume num batuque só (lembrando que o preço desses perfumes, principalmente na época, não eram baratos). Isso era um verdadeiro espetáculo pois o povo ia a loucura aos gritos:


“Ora Ieieuô, Ieieuô minha rica mãe.” - recebendo as bençãos das Yabás da casa de seu Mariozinho.

Na rua Barão do Amazonas no Partenon existia uma figura famosa chamada “o nego Zecão do Lodê”, extremamente rude e grosso, tinha ele verdadeiro pavor do que ele chamava “as bixas” principalmente o Mariozinho. - lembrando que nosso batuque dos anos 80/90 sempre acolheu o povo LGBTQIAPN+, desde os primórdios de sua existência.

O famoso Nego Zecão tinha uma implicância com a Oxum de seu rival, Mariozinho e sempre que o via nos batuques dizia:

“Se essa bixa ou essa santa vierem colocar perfume em mim vou dar na cara dele ocupado ou não!”

Zecão era um negro pobre e humilde filho da finada Mãe Ritinha do Xangô, do alto Teresópolis, e trabalhava como açougueiro no mercado público de Porto Alegre. Ele não era chegado a ir a batuques pois trabalhava de domingo à domingo para sustentar seus 6 filhos e sua mulher.

No aniversário da Iansã da grande Mãe Leca, do Passo das Pedra de 35 anos de vasilha de Mãe Funiqué, a Mãe convidou sua comadre Ritinha do Xangô, mãe de Zacão, que intimou todos seus filhos para o batuque de aniversário dessa grande Yabá, principalmente o Zecão que, dizem por aí:

“Tinha um Bará Olodê de encher os olhos de tão lindo orixá.”


Lá pelas tantas, o batuque começa e pelas rezas do Bará e durante a chamada do Lodê do Nego Zecão, esse grande Orixá se **ocupa e seu filho e da vida ao batuque com aplausos e gritos de: “Alupô meu pai, Alupô!

O Bará ficou no mundo até as rezas da Obá, seu ajuntó e foi despachado. Zecão sai no pátio para comer uma bela de uma galinha enfarofada e logo se deparou com Mariozinho e seus filhos.

Como ele dizia: “aquelas bixas pareciam um carro alegórico” de tanto que se arrumavam para os Batuques da época. Bastou o Nego olhar para fechar sua cara, ele se sentia incomodado com as tais “bixas” da época - tendo um preconceito tremendo com a homossexualidade latente em Porto Alegre que ainda alegra a cena cultural e religiosa da cidade.

O Xangô de mãe Ritinha chamou todos os filhos para a roda nas rezas da Oxum e Zecão do Lodê entrou no lado oposto da roda, encarando seu rival.

Assim que o Locori de Oxum começa a tocar - a famosa reza dos perfumes e a Oxum de

Mariozinho chega para dar show em frente ao tambor e entregar seu axé mais belo.


O povo da casa lhe entrega dois vidros de perfume. Foi ai que a roda lotou pois o povo sempre esperava o axé daquela mãe, Zecão diz ao seu irmão, Zé do Ogum que estava na sua frente na roda: “É hoje que dou na cara dessa Oxum se encostar um pingo de perfume em mim.” - convenhamos, algo que não se fala, principalmente dentro de um Batuque de Aniversário de Vasilha de uma grande Mãe, e na minha opinião não se pensa nem com a cortina de um quarto de santo aberta, independente do preconceito enraizado na matéria.

A mãe Oxum colocava perfume nos filhos na roda e assoprava por cima em sua suave dança e magia, rodopiando pelo salão, encantando a todos com o seu Axé.

Foi ai que perfume tocou o rosto de Zecão e ele, rancoroso e ranzinza, cumpriu o que sempre dizia. Perdeu a compostura e deu um tapa na cara da Oxum, ocupada e tudo! O batuque parou.

A Oxum de Mariozinho de foi até o quarto de santo e dizem por aí, “tomou de gut gut” os perfumes que tinha e logo depois, bateu cabeça, parando em frente ao tambor e tirando seu axé "Axirelú Pandá mi…" girando, girando e girando.

A Oxum parou o tambor e disse para Zecão e todos que quisessem escutar: “Essa mão que você usou para bater em meu rosto você nunca mais vai encostar em nada!

O batuque se encerra e todos voltam para suas casas, comentando o que havia ocorrido na casa de Mãe Ritinha da Iansã.


Quatro dias depois, no açougue em que Nego Zecão trabalhava, distraído na sua lida diária, cortando uma carne que chegou inteira para ser limpa, Zecão e cortando o pulso inteiro, perdendo a mão que bateu no rosto da Oxum de Mariozinho.

"Toda beleza tem seu perigo" assim disse mamãe Oxum!

O que o Ilê Axé Bará Lodê guarda desta história:


No Ilê Axé Bará Lodê, histórias como essa não são repetidas para alimentar medo ou rivalidade. São transmitidas como ensinamento ancestral — memória viva passada de geração em geração.

Lembrando que preconceito e agressão são crimes passiveis de punição pela Justiça Federal.


Elas nos lembram que:

  • O sagrado exige respeito.

  • Toda ação tem consequência.

  • A doçura é força.

  • O axé não é espetáculo — é fundamento.


Agradecemos ao Pai Jaderson de Iemanjá e ao Canal Kizomba por manterem vivas as narrativas que educam, esclarecem e preservam a dignidade das religiões de matriz africana e os direitos LGBTQIAPN+.


Contar histórias é também cuidar da memória. E quem cuida da memória, protege o axé.


🗝️❤️ Alupô Bará Lodê | Ora Yeyêo. 💛🗝️



Agradecimentos especiais ao Pai Anderson D'Lodê Açuã e a vasilha de Pai Vilson da Oxum Pandá.


Texto por Nicole D'Oshun Ademun Açuã 💛💚

 
 
 

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