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A Mesa que Não se Sustentou - Contos de Orixá | Batuque - RS

  • Foto do escritor: Nicole da Oxum
    Nicole da Oxum
  • 23 de fev.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 5 de mar.


Nos anos 90, em Porto Alegre, contam os mais velhos que uma casa conhecida abriu suas portas para uma mesa de Ibejís. Era tempo de muitos batuques, de casas cheias, de vaidades também cheias. Quem viveu aquela época sabe: o axé florescia — e as disputas também.

Jorge Belerum e Chamim Ty Agandju foram chamados para tocar em uma mesa de Ibejís. Os dois entraram no salão que já estava preparado e sentiram algo estranho. Não foi o cheiro. Não foi o som. Foi o silêncio entre as coisas.

Os dois não sabiam exatamente o que era, mas pressentiram que algo de ruim estava por vir.


Como sempre, Chamim proferiu sua famosa frase: "Eu não sou bobo nem nada!" E ele foi direto para a cozinha da casa, pressentindo que a fundamentação estava fraca, e pediu um alguidar. Os dois fizeram um eco que foi colocado debaixo de um tambor e se sentaram para o início dos trabalhos.

A mesa de Ibejís estava montada, mas faltava o que sustenta a justiça. Algo não estava certo: havia pequenos sacos plásticos embrulhados em tecidos nos cantos da mesa. E o amalá, que representa o dono da justiça, não estava presente.

Para quem entende, isso foi o suficiente: a representação culinária de uma boa balança de justiça do orixá Xangô não estava lá. Os dois começaram o toque, rezando para o Orixá Lanã, e eu, diz Belerum, comecei a tossir como um cachorro gripado. “Eu não conseguia nem cantar bem. Chamim assumiu e cantou. Naquele dia eu realmente não me senti bem”, comenta Belerum.

O ar parecia espesso.

A mesa ainda estava seguindo seu curso, mas nenhum orixá desceu ao mundo.

E, quando o sagrado não pisa no chão que foi preparado, é porque o chão não está limpo de intenção.



Dizem os antigos que havia muitos pais de santo presentes que entendiam o que estava acontecendo, mas eram mal-intencionados. Isso existia e sempre existirá dentro de casas de axé. Mas os orixás daquela época não brincavam com seu trabalho e se mostravam muito mais duros do que hoje em dia.


Uma menina começou a passar mal. Pequena demais para carregar o peso de adultos. Vomitou ali mesmo, no meio do salão. O desespero correu mais rápido que o tambor.

Há momentos em que a religião mostra seu rosto mais duro: não como punição, mas como espelho. Chamim, que não tinha papas na língua, gritou: "Belerum, não se surpreenda se houver uma troca de vida lá!"

A mãe da menina, desesperada; a menina, chorando e vomitando. O pai de santo da casa pegou aqueles sacos dos cantos da mesa e os colocou em uma panela ao lado de uma ave.

Os olhos dos tamboreiros viram tudo, atentos, pois isso faz parte dos trabalhos de um bom ogã.

Belerum puxou a reza: "Olokun mailó aba modjunpé / Olokun mailó acainá mailó".

Do lado de fora — porque às vezes o axé prefere o vento à parede — manifestou-se Oxum. Não em espetáculo, mas em cuidado. Pequena no corpo e imensa na presença. Era a Oxum da falecida Ameligne — uma senhora baixinha de apenas 1,55 metro de altura — que apareceu, já com os cabelos brancos. Ela abraçou a menina desesperada do lado de fora, na rua.

O pai de santo ordenou: "Sente alguém aqui e vamos continuar com a mesa!" Mas ninguém queria se sentar. Todo mundo sabia que algo estava errado.

A menina, na rua, nos braços da Oxum de Ameligne.

Enquanto dentro da casa tentavam sustentar o que não se sustentava, do lado de fora ecoava reza antiga, dessas que vibram no osso. E, da rua, suas orações altas podiam ser ouvidas: "Danda siami anam miwa na miwe..."

Chamim continuou sustentando a reza e o tambor com sua voz única. Oxum espalhou mel nas costas da garota enquanto ela cantava.

Mel — como remédio e símbolo da doçura que reorganiza o que foi desequilibrado.

A menina voltou a si. Então, mãe Oxum pediu agô. E, quando Oxum pede agô, até o tambor aprende a silenciar.


O pai de santo se dirigiu ao tambor e falou: "Você não precisa tocar Alujá para levantar a mesa, porque o que começa mal acaba mal." Então, ele se dirigiu a Belerum e Chamim e falou: "Você sabia que havia algo estranho no momento em que entrou dentro de minha casa e defendeu o seu. Mas isso não é religião, meus filhos." E ao dono da casa Chamim respondeu, com o peso e a responsabilidade que carrega um filho do orixá Xangô dentro de uma obrigação: "À medida que as luas passam, você se lembrará de mim."

Os dois puxaram "Oxalá Lerum, Oxalá Lerum..." pedindo misericórdia pelo que havia acontecido na mesa que estava sendo levantada. Depois disso, os dois saíram de lá.


Os anos passaram como passam as luas. E o dono daquela casa viu seu círculo se esvaziar. Não por feitiço. Por consequência. Filho que vai embora, recurso que mingua, nome que perde força. O declínio não veio como raio — veio como maré que recua.

Porque o axé verdadeiro não se sustenta em troca injusta.


E mesa de Ibejís não é lugar de barganha.


"Os mais velhos já saberão de quem estou falando. São histórias do nosso Batuque, que ficarão para sempre na memória. Foi uma situação terrível. E sim, houve muitas trocas nas mesas de Ibejís. O conhecimento deve ser usado a nosso favor, mas de forma positiva. Usá-lo em seu benefício ao custo de prejudicar os outros, sem dúvida, acabará assim", conta Jorge, sempre espantado com o que aconteceu naquele dia fatídico.



O que o Ilê Axé Bará Lodê guarda desta memória:


Histórias como essa não são contadas para expor nomes ou alimentar temor. São transmitidas como advertência ancestral.


Aprendemos que:


Conhecimento sem ética se torna veneno.

Mesa espiritual não é palco de interesse pessoal.

Crianças não devem carregar a sombra da ambição adulta.


  • Orixá não compactua com injustiça.

  • Oxum ensina com mel — mas também com espelho.

  • Que o tambor sempre encontre verdade.

  • Que a intenção seja mais forte que a vaidade.

  • Que o axé permaneça onde há fundamento.


Alupô Bará Lodê. 🗝️ Ora Yeyêo. 💛

por Nicole D'Oshun Açuã


Agradecimentos:


O Ilê Axé Bará Lodê registra sua reverência às memórias e ensinamentos transmitidos por:

Amelita de Oxum, cuja firmeza e doçura marcaram gerações.

Chamim de Aganjú, pelo compromisso com o tambor e com a verdade.

Jorge Belerum, pela preservação dessa narrativa.

E à Rede Vizinha, na pessoa de Fefe de Oxalá, pela tradução e circulação da memória.

 
 
 

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